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163058_182131438479707_5658603_nRecordo o silêncio, a escuridão presente no meu nascimento – em épocas distantes tal era comum, nascer no lar – no local a que chamaria casa. Mas, o que mais me marcou foi o frio cortante que me atingiu a pele nua e mais tarde a alma, havia sido abandonado pela única que nunca me deveria deixar de amar – acredito ser triste viver órfão de pais, mas que sentimento se deve ter quando se é abandonado? – Acredito que foi esse fogo que forjou a minha alma, que me fez seguir em frente, aquele porquê inexplicável que me fez nascer sem um nome.
Aturdido pelo vazio chorei, – os primeiros frágeis sons que libertei neste mundo não foram de alegria e conforto no regaço da minha mãe mas sim de lamento – chorei até não poder mais, até a tristeza dar lugar à fome, rastejei para fora do meu berço e tenho de confessar que até hoje não sei como sobrevivi a fome, é como se outro eu – outro ser ou outros instintos, seja qual for o nome que lhe queiram dar – mais animalesco se tenha apoderado de mim, recordo ressurgir no meu corpo adulto, anos mais tarde, como um ladrão.
Um ladrão não apenas por necessidade – não, naqueles anos perdidos algo mudou em mim – mas por prazer, ouro em abundância, alimento em fartura e, no entanto, ausente de um nome próprio. Foi esse pormenor que me fez lançar numa cruzada por conhecimento, roubei letras, pilhei conhecimento e assaltei sábios, a cada roubo o nome ia-se formando, a cada ano de crescimento ele ia surgindo – mas quanto mais me aproximava dele, menos ele me agradava, quanto mais o entendia, mais ele me repugnava, quanto mais o gritavam, menos eu gostava do seu som e de como era usado – o que fariam se toda a gente fugisse com a vossa chegada, se a vossa mãe vos deixa-se sós no berço e partisse sem vos dar um nome, mas acima de tudo, o que fariam se ao alcançarem o vosso nome, este fosse sinal de desgraça, de temor nos olhos das pessoas que vos rodeiam. Seria por causa do ouro tirado a quem não lhe dava valor, do conhecimento adquirido ou seria apenas preconceito por ser um abandonado? Tivesse eu sido justo e algo mudaria ou seria julgado na mesma? Questões sem resposta que nunca me abandonarão, que apenas alimentam o meu fogo, a minha ira, o meu eu animal – o assassino reprimido em mim nunca antes visto – mas se o querem acordar… gritem… Gritem bem alto mais uma vez e eu juro, pela minha mãe – que um dia hei-de esventrar – que vos faço arder na chama da minha alma.
Gritem uma última vez – Fujam que vem lá o Dragão – e a vossa alma arderá como a minha.

Dragão

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