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Corria o ano de 2013 quando, quatro freguesias de Coimbra (São Bartolomeu, Sé Nova, Sé Velha e Santa Cruz), designadas por Universidade de Coimbra – Alta e Sofia, foram consideradas pela UNESCO como Património da Humanidade.

É óbvio que é uma distinção merecida, por toda a história e qualidade cultural e arquitectónica que lhes é adjacente, mas será que este facto não será suficiente para uma revitalização da cidade? É com imensa pena e desagrado que vejo, cada vez mais, Coimbra a transformar-se numa cidade de fachada.

Há obras novas, a meu ver completamente desadequadas tanto em escala como em função para o local onde se inserem, como é o caso do Centro de Congressos na Guarda Inglesa, mesmo em frente ao Convento de São Francisco; quando, mesmo por cima, existe o Convento de Santa Clara-a-Nova, com imenso potencial de ser convertido num espaço público e de interesse, que se está em clara degradação e para o qual não há verbas que financiem a sua manutenção.

Esta Margem é claramente a mais descaracterizada das duas banhadas pelo Mondego, apesar de ser nela que se encontram dos edifícios mais emblemáticos da Cidade, como são os conventos anteriormente referidos, o Convento de Santa Clara-a-Velha, recentemente reabilitado com um projecto dos Arquitectos Sérgio Fernandez e Alexandre Alves Costa que, além do edifício em si, projectaram um jardim e edifício novos que dão ao visitantes a oportunidade de ver todos os achados arqueológicos feitos no local, e de sentir a cidade de uma forma única. Além deste conjunto arquitectónico, é aqui que também encontramos o famoso Portugal dos Pequenitos, obra do arquitecto Cassiano Branco, construído durante o período ditatorial pelo qual passou o nosso país, e que ainda hoje é um ícone da Cidade e do país.

Em contra partida, à sua volta vemos três realidades completamente diferentes; a massificação da habitação plurifamiliar, com a presença de prédios habitacionais que albergam centenas de estudantes, nomeadamente da faculdade de Desporto também ali presente; os prédios degradados, presentes por toda a cidade e em quem ninguém pega para reabilitar, preferindo construir obra de raiz; e finalmente, todos os espaços vazios, junto às zonas desportiva (Pavilhões e Estádio Municipal) e desde o final das garagens dos SMTUC até à Mata do Choupal, frequentemente utilizados como parques de estacionamento nomeadamente em épocas de festas académicas. Esta acaba por ser a margem renegada da cidade.

Atravessando o Rio para a Margem oposta chegamos, então, à zona classificada como Património da Humanidade.

Temos, à nossa frente, o Largo da Portagem, um dos mais emblemáticos espaços da cidade, com o Banco de Portugal e o Hotel Astória ao nosso lado esquerdo, dois edifícios de grande importância e qualidade arquitectónica. Por cima das nossas cabeças, vemos a alta, com a majestosa Cabra a coroar a colina onde se desenvolve todo o casario de traça tradicional e a Universidade, a mais antiga e importante do país.

Depois deste largo, temos duas realidades diferentes, aquelas que são duas das ruas mais importantes de Coimbra, a Visconde da Luz e a Ferreira Borges, que ligam o Largo da Portagem à Praça 8 de Maio e que são ruas comerciais por excelência, mantendo, a muito custo, o comércio tradicional vivo, com as inúmeras lojas de moda, souvenirs e esplanadas, que culmina no Café Santa Cruz, considerado um dos mais bonitos de Portugal; e as suas ruas adjacentes, começando na Praça Velha e percorrendo as ruelas da baixa Coimbrã, onde nos deparamos com uma imensidão de lojas-fantasma. Aquele que, até à abertura dos grandes Centros Comerciais da Cidade, era um pólo comercial vivo, não passa hoje de um conjunto de ruas escuras e vazias, onde se vê a degradação dos edifícios seculares e das pessoas que lá habitam.

Ainda na Baixa encontramos o Terreiro da Erva e a Rua Direita, conhecidos pelas actividades ilícitas como o tráfico de estupefacientes e prostituição que lá acontecem.

Esta zona de Coimbra necessita de intervenção rápida para manutenção dos edifícios de interesse e dinamização dos espaços.

Em vez de deslocar as pessoas para as habitações sociais de bairros problemáticos nas imediações da cidade, parece-me mais ajustada a reabilitação dos prédios e a sua ocupação por parte destas famílias carenciadas e sem-abrigo. Contrapondo com esta realidade, temos a Avenida Fernão de Magalhães, pólo de serviços da Cidade e na qual se desenvolve uma massificada construção de prédios de escritórios e habitação.

É Impressionante a forma como num curto espaço existem realidades tão diferentes.

Continuando a falar na degradação da baixa, não me posso esquecer das antigas fábricas, abandonadas e em ruína com perigo de queda iminente e que em tempos foram meio de subsistência da maior parte dos Conimbricenses.

Há ainda a Rua da Sofia, que em latim significa sabedoria, e onde se encontram os colégios que formaram primeiramente a Universidade, antes desta ser implantada na Alta. Esta rua não tem grandes problemas, mantém-se viva, com o seu comércio, unidades de saúde e Igrejas. Mas, se antigamente era uma rua de permanência estudantil, hoje não passa de um local de passagem.

Não posso falar nesta zona da Cidade sem referir aquele que talvez tenha sido o maior tiro no pé de Coimbra dos últimos anos; o Metro Coimbra. Este era um projecto que, aparentemente, transpirava benefícios, e que acabou por só trazer problemas. Graças ao projecto do Metro, foi demolida parte significativa do “Bota Abaixo”, foi desactivada a linha ferroviária que ligava Coimbra à Lousã e desactivada a estação Central, e para quê? Para, como todas as obras desajustadas deste país, parar por falta de capital. Graças a isso, hoje temos uma zona de ruínas provocadas pelo homem junto da Loja do Cidadão, uma estação quase fantasma no Centro da cidade, e graves problemas de acessos para quem quer chegar a Coimbra vindo de transportes públicos desde a Lousã.
Deixando para trás a Monumental Rua da Sofia, posso claramente usar as palavras do rapper Son na música Tudo isto é Coimbra, para descrever o que se segue

“(…)Subindo, passo o mercado e o “Leão de Camões”/Um mendigo vem ter comigo à procura de uns tostões/Lá lhe dei o que ele queria e continuei a subida/(…)/passando pelo “Avenida”/Passo pela “Associação” e o “Gil Vicente”, chego ao Cartola/Onde Capas Negras esvoaçantes enchem a praça a ver a bola/Escureceu e Coimbra ganhou uma nova vida/Estudantes de Capa Negra procuram o bar com a melhor batida(…)”

Aqui, na Avenida Sá da Bandeira, começa a zona de vida Académica por excelência, extendendo-se por toda a Alta. Mas também aqui existem claros problemas.

Esta zona ganha vida à noite, mas durante o dia vemos prédios degradados, bares de porta fechada, e aqueles que, há poucos anos eram ícones para os estudantes, fechados, como é o caso do Cartola e da Associação de Estudantes. Ainda nesta Avenida existe um Centro Comercial com o mesmo nome, aquele que foi o primeiro cinema da cidade, hoje é um edifício de lojas vazias com um enorme potencial de serem aproveitadas para, por exemplo, criar um espaço de culturas alternativas e/ou troca de experiências por parte dos estudantes.

A partir da Praça da república desenvolve-se a alta, e não podemos falar desta zona sem falar dos estudantes.

É aqui que se encontram a maioria das faculdades da Universidade de Coimbra, umas adaptadas a edifícios construídos para outras funções, como é o caso do Departamento de Arquitectura, que se encontra num edifício que anteriormente foi um hospital, aos edifícios implantados no tempo do Estado Novo, quando o então chefe de Estado, António Oliveira Salazar, mandou arrasar com parte da Alta e implantar os colégios que ainda hoje são as faculdades mais relevantes. Mas nem estes edifícios escapam ao passar do tempo e à falta de manutenção. 9

9% dos imóveis pertencentes à Universidade de Coimbra estão claramente a precisar de Obras. Pode ser considerada uma das melhores do país em termos de ensino, mas não é, obviamente, uma das melhores a nível de condições físicas.

Mas não são só os edifícios académicos que estão degradados. Basta um breve passeio pelas ruas da alta para percebermos o quão necessário é a intervenção arquitectónica ao nível da reabilitação nos prédios desta zona Coimbrã.

De enaltecer as obras de reabilitação do Museu Nacional Machado de Castro, trazendo a público as ruínas de tempos antigos e dinamizando esta zona.

Também é entre estas ruelas que encontramos uma das mais importantes Igrejas da cidade, a Sé Velha, que se mantém imponente e onde continuam a ser feitas as magistrais serenatas da Queima das Fitas.

A partir da Sé podemos ir ao encontro da Couraça de Lisboa, que, ao que parece, em breve será alvo de uma intervenção que a iluminará; mais uma vez tenho dúvidas se esta medida seria uma das mais necessárias no momento ou se é mais uma medida de fachada, só para mostrar aos senhores da UNESCO que se está a valorizar a imagem da Cidade.

Apesar de todos os problemas que a cidade apresenta, tem-se mantido com identidade própria com o passar dos anos, como tão bem retratam os Fados de Coimbra, entoados desde sempre pelos estudantes, seus eternos amantes.

Quem passa por Coimbra acaba encantado e apaixonado pela sua cultura, hospitalidade e beleza, fazendo com que todos estes problemas passem um pouco ao lado.

Quem vive Coimbra não mais a esquece, mas olhando com cuidado, chegamo-nos a perguntar: Coimbra merece ser património da Humanidade? Mesmo que não mereça pelo pouco que é feito para resolver os problemas de fundo, Coimbra será sempre Património de quem por ela passa, de quem a sua capa negra veste e de quem o seu ar respira.

Hélia Branco

(texto originalmente publicado no site arq-you.com)

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