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Ninguém merece as tuas lágrimas, pois se as merecesse não te fazia chorar.

Estava sentado em Belém, num dos muitos bancos de jardim existentes no vasto relvado quando, sem dar conta, alguém se senta ao seu lado, lhe mete a mão no ombro e com a outra lhe oferece um lenço para que pudesse enxugar as lágrimas enquanto profere estas palavras.

-Não chores, ninguém merece as tuas lágrimas! Lembra-te que o objectivo de quem nos ama, é fazer-nos sorrir, não é fazer-nos chorar.

Ele olhou para aquele rosto claramente fustigado pelo sol, pelo frio e pela idade. A senhora que se sentara a seu lado deveria ter cerca de 80 anos, tinha um olhar doce e umas mãos sofridas. Alguém que terá trabalhado muito, alguém que sabia perfeitamente o que estava a dizer.

Horas de conversa se desenrolaram, ele explicou à senhora o motivo de tamanho pranto e ela, como que se de sua avó se tratasse, foi confortando-o ao longo de cada frase. Parecia uma criança a quem roubaram o brinquedo favorito, ela tinha-o deixado sem razão aparente. Apaixonara-se por outro segundo disse. Ele continua sem perceber. Foram seis anos de vida comum, seis anos de alegrias, seis anos de tristezas, de angústias e conquistas. Seis anos trocados por um outro alguém que conhecera à pouco mais de um mês.

Parou de chorar quando a velha senhora o olhou nos olhos, lhe limpou as lágrimas com os próprios dedos e lhe disse:

-Achas que seis anos é muito tempo? Então que diria eu que fui casada durante 55 anos. Que partilhei todos esses dias, sem excepção, com o mesmo homem. Que superei crises, dificuldades, perda de um filho e claro que muitas alegrias. Foram 55 anos de amor, de compreensão, de companheirismo. E há cinco anos atrás ela chegou e levou o amor da minha vida com ela. E não foi uma mulher qualquer, foi a mais horrível de todas, com o seu hábito preto e a foice na mão. Pois é meu filho, a Morte levou o meu marido sem avisar. E não te vou dizer que não chorei. Sim, chorei muito, afinal foram 55 anos de vida em comum, e as saudades são imensas. Mas de cada vez que isso acontece, eu lembro-me da primeira frase que ele me disse quando me viu pela primeira vez: “-Menina, ninguém merece as suas lágrimas, pois se as merecesse não a faria chorar!” Agora, sempre que me lembro dele, sorrio. Por isso, meu filho, não chores, se ela foi, é porque não merecia o teu amor.

Deu-lhe um abraço, levantou-se, e seguiu o seu caminho desaparecendo ao longe, como de se um anjo se tratasse. A vida dele tomou outro sentido, passou a ser feliz, sempre com o olhar ternurento daquele dia a acompanhá-lo.

H.B.

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