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Espero por ti como sempre. É só mais uma noite gélida e eu continuo sentada no rebate a olhar para o infinito. Tenho o secreto desejo que ainda me apareças, qual D. Sebastião por entre a bruma. Não perco a esperança. Não enquanto os meus olhos mo permitirem, não enquanto a minha mente me disser que um dia voltas. Podem passar dezenas de anos, mas ver-te-ei sempre da mesma forma: sorriso contagiante e olhar brilhante. Não me esqueço da última vez que te abracei, estavas com os teus calções favoritos, azuis escuros, e com a t-shirt branca de que tanto gostavas.

-Gosto muito de ti mãe, mas agora larga-me, deixa-me ir brincar com os meus amigos!

E foi a última vez que ouvi a tua voz. Porque é que te larguei? Porque é que naquela tarde tinhas de ir embora? Porque é que tinham de te levar de mim? Porque é que não me deixas-te dar-te um último beijo? Porque é que que Deus, se é que Ele existe, te levou de mim sem me deixar despedir em condições?

Sabes filho, deste-me a maior alegria e a maior tristeza da minha vida. Desde aquela tarde de Agosto que não voltei a viver. Hoje em dia apenas sobrevivo, sendo que o que me mantém acordada é a ideia de te voltar a ver, de te ver a correr na minha direcção e a abraçar-me como tantas vezes fazias.

Passaram 26 anos, e esta casa está vazia, falta a tua alegria para a encher, ouço as tuas gargalhadas a cada canto. E o teu quarto, esse continua igual, a cama continua desfeita com os teus lençóis dos aviões, o urso de peluche que a tia te ofereceu continua na almofada ao lado da tua, e até o livro continua aberto na página em que deixaste, aquela que não acabaste de completar com a pressa de ir brincar com os outros meninos.

Não desconfiávamos sequer que estavas doente. A tosse que apresentavas não era nada de alarmante, era por andares descalço no quintal da tua avó enquanto ela andava a regar, pensávamos nós. Mas essa maldita doença levou-me o maior tesouro de todos. Levou-me o meu filho sem me dar a possibilidade de o voltar a ver, sem me dar a oportunidade de o ver crescer, sem que eu pudesse levá-lo ao altar num casamento digno do príncipe que era, sem que os meus netos me pudessem encher a casa com saltos, correrias e birras. Desde esse dia, todas as tardes sem excepção, faça chuva ou faça sol, que me sento neste mesmo rebate, e espero que venhas a correr até mim, com a tua alegria contagiante, para me abraçar e contar como correu o dia.

Mas todos os dias, noite após noite, tu não vens e eu não tenho o abraço.

Resta-me apenas papel, uma caneta e memórias, memórias dos melhores sete anos da minha vida. Mas até que a vida me deixe, vou continuar a sentar-me aqui à tua espera, porque sei que um dia é a partir deste mesmo local que, caso não venhas ter comigo, em parto ao teu encontro para aí sim, vivermos o que não nos deixaram viver nos últimos 26 anos.

H.B.

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