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O caminho era longo, e ela fazia-o com os pés descalços e o coração nas mãos.
Nunca antes se tinha imaginado em tamanha luta.
Até ali nunca pensara em desistir de sonhos antigos, em criar novas expectativas ou até mesmo em negar os seus sentimentos. Tinha um grande percurso pela frente, percurso esse a que toda a gente em redor chama de vida, mas que ela preferia apelidar de amor.
Os pés descalços faziam com que absorvesse todas as sensações que apanhava pelo caminho, criando uma base sólida que, a cada nova dor se tornava mais forte permitindo que ela caminhasse por onde queria sem medos e com a perfeita noção de que tinha de estar atenta para não pisar em nada nem ninguém sem que sentisse na pele o que estava a fazer. Os pés descalços deram-lhe o apurar da consciência, de uma consciência que a fazia olhar em seu redor antes de dar um passo, uma consciência que a fez perceber que quem o mais fraco pisa, um dia poderá ser pisado por um mais forte.
O coração nas mão fazia-a ir vivendo cada novo sentimento como se fosse único, e se umas vezes este lhe parecias saltar das mãos, outras havia em que ele se diminuía de tal forma que nem ela quase o conseguia sentir. Contudo a sua ingenuidade e crença nas pessoas faziam com que seguisse em frente cheia de boas emoções e amor para dar.
Na verdade o que ela mais queria era encontra-lo, ele que lhe roubara o sono, ele que a meio desta caminhada a fez mudar de direcção, que a fez descer dos saltos e arrancar o coração do peito de forma a ser ela mesma, sem artifícios.
Ele caminhava dois passos à frente dela, também ele com o coração nas mãos, também ele com os pés descalços. Os dele já tinham profundas chagas de tropeções e vidros que apanhara no caminho. O coração dele estava quase inanimado de tanto se diminuir perante tudo o que se apresentara à sua frente durante o caminho que até então percorrera.
Ele era daqueles que à caminhada chamara vida, ainda não tinha percebido que vida sem amor é apenas uma caminhada dolorosa e solitária onde cada um cura as suas chagas sem perceber muito bem como nem porquê. Ele tornara-se em alguém cauteloso, com medo de sentir e de perder o seu já frágil coração para sempre.
Ela sabia que se apressasse o ritmo a que caminhava o iria alcançar, mas tinha também noção de que ele ainda não estava pronto para caminhar lado a lado com aquela que iria fazer o coração dele renascer.
Quando o estivesse, iria ser ele a abrandar, a parar para curar as feridas e dar atenção ao seu pobre coração diminuído pelo tempo.
Nessa altura ela chegara ao pé dele e mostrara-lhe o que era o amor e quais os milagres que ele fazia no coração, nos pés e na alma das pessoas.
Aí, onde dois corações fora do peito se encontram, ele percebe que não há vida que não tenha amor, ela percebe que não basta o amor para seguir a caminhada, e os quatro pés descalços juntam-se para em conjunto terminarem esse longo percurso de amor chamado Vida.
A partir desse momento, os corações encontraram uma nova casa, o dele no peito dela e o dela no peito dele, sentindo-se finalmente protegidos, as mãos que os seguravam estavam agora juntas, mas os pés continuaram descalços para que ambos percebessem que, apesar de terem o coração um do outro e caminharem de mãos dadas, ainda iriam encontrar muitos obstáculos pelo caminho e iriam abrir muitas feridas que tinham de aprender a curar juntos.

H.

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